De 1960 ao Minneapolis Miracle: a saga épica e sofrida do Minnesota Vikings na NFL

Em janeiro de 1960, a NFL aprovou a criação de uma franquia em Minnesota, estado historicamente marcado pela cultura escandinava americana. Não por acaso, o primeiro general manager do time escolheu o nome Vikings para representar essa herança, oficializando a identidade em setembro daquele ano. O primeiro head coach foi Norm Van Brocklin, um QB recém-aposentado do Philadelphia Eagles que havia sido MVP em sua última temporada. Com a primeira escolha geral do draft de 1961, o Vikings selecionou o RB Tommy Mason, de Tulane, e na terceira rodada encontrou uma joia que mudaria a história da franquia: o QB Fran Tarkenton, da Universidade da Geórgia. Logo no primeiro jogo de temporada regular, em 17 de setembro de 1961, Tarkenton entrou e comandou uma vitória contra o Chicago Bears com quatro passes para touchdown e um touchdown corrido, um prenúncio do talento que revolucionaria a posição de quarterback na liga.
A chegada de Bud Grant como head coach em 1967 transformou o DNA do Vikings para sempre. Grant é até hoje considerado o maior treinador da história da franquia, e sua influência foi imediata. Ele disciplinou e moldou a lendária Purple People Eaters, uma das maiores linhas defensivas que a NFL já viu, composta por Alan Page, Jim Marshall, Carl Eller e Gary Larson, posteriormente substituído por Doug Sutherland. O nome, inspirado em uma canção popular de 1958, se tornou sinônimo de terror para quarterbacks adversários. O lema da unidade, 'Meet at the Quarterback', resumia tudo. Grant implementou a formação 4-3 que se tornou marca registrada da defesa do Vikings, deu liberdade total para Tarkenton fazer seus scrambles quando o QB retornou ao time em 1972 e construiu um ecossistema defensivo que incluía o safety Paul Krause e o LB Jeff Siemon. Alan Page conquistou o MVP de 1971, tornando-se o primeiro defensor a receber o prêmio, além de ser duas vezes Defensive Player of the Year e seis vezes First Team All-Pro. Fora de campo, Page se tornou o primeiro juiz negro na Suprema Corte de Minnesota em 1992. Carl Eller encerrou a carreira como o líder em sacks na história do Vikings, enquanto Jim Marshall estabeleceu o recorde de 270 jogos consecutivos pelo mesmo time na NFL.
O período entre 1969 e 1976 representa a era de ouro e, ao mesmo tempo, a maior fonte de frustração da franquia. O Vikings chegou a quatro Super Bowls e perdeu todos. Em 1969, com Joe Kapp no comando do ataque, o time conquistou o título da NFL ao destruir o Cleveland Browns por 27 a 7, mas caiu para o Kansas City Chiefs no Super Bowl IV. Kapp, que se recusou a aceitar o prêmio de MVP do time dizendo que havia '40 Vikings valiosos', ficou apenas quatro temporadas na liga. Em 1973, já com Tarkenton de volta, o Vikings perdeu para o Miami Dolphins no Super Bowl VIII por 24 a 7. Na temporada seguinte, nova derrota, desta vez para a feroz defesa do Pittsburgh Steelers. Em 1975, quando Tarkenton foi MVP da liga, o time caiu no Divisional Round contra o Dallas Cowboys em um lance que entrou para a história: a primeira Hail Mary da NFL, em uma jogada que os jogadores do Vikings acusaram de ter havido pass interference do WR Drew Pearson sobre o CB Nate Wright. Para tornar tudo mais trágico, o pai de Tarkenton, que sofria de problemas cardíacos, faleceu durante o jogo. Em 1976, veio a quarta derrota em Super Bowl, contra o Oakland Raiders de John Madden. Tarkenton se aposentou em 1978 como o quarterback com mais jardas e touchdowns na história da NFL na época, marcas que só seriam superadas por Dan Marino em 1995.
Após a aposentadoria da geração de ouro, o Vikings seguiu competitivo, mas a busca pelo esquivo troféu Lombardi continuou frustrante. Tommy Kramer assumiu a titularidade e protagonizou o 'Miracle at the Met' em 1980. Bud Grant se aposentou em 1984, voltou em 1985 e se aposentou de vez. Jerry Burns comandou o time entre 1986 e 1991, período que trouxe jogadores como o DE Chris Doleman, o DT Keith Millard, que foi Defensive Player of the Year em 1989, e o WR Anthony Carter. Na temporada de 1987, o time voltou aos playoffs após cinco anos, eliminou os Saints por 44 a 10 no wildcard e derrotou o favorito San Francisco 49ers no Divisional Round, em um jogo onde Joe Montana foi anulado e substituído, e Anthony Carter estabeleceu o recorde de playoffs com 10 recepções para 227 jardas. Na final da NFC, porém, Darren Nelson deixou cair um passe na endzone em uma quarta descida que teria empatado o jogo. E em 1989 veio o trade que assombra a franquia até hoje: Herschel Walker foi adquirido do Dallas Cowboys, que usou as escolhas recebidas para montar o time que conquistou três Super Bowls, incluindo a seleção de Emmitt Smith. Walker ficou apenas três temporadas irrelevantes em Minnesota.
A era Dennis Green, que assumiu em 1992, trouxe novos ídolos e a temporada mais espetacular da história do Vikings. O WR Cris Carter, cortado pelo Eagles em 1989 após problemas com álcool e drogas, encontrou em Minnesota a chance de se reinventar e se tornou um dos maiores da posição na história da NFL, reconhecido como o melhor nas recepções com uma mão. O guard Randall McDaniel foi nove vezes First Team All-Pro e 12 vezes Pro Bowler. O DT John Randle, undrafted, se transformou em um monstro que o próprio Brett Favre chamava de 'imbloqueável' e o defensor mais difícil que já enfrentou. Em 1998, o Vikings draftou Randy Moss, que ao lado de Carter formou a melhor dupla de WR que a liga já viu. Moss foi Rookie of the Year e liderou a liga em touchdowns recebidos. Aquele time, com Randall Cunningham no comando após a lesão de Brad Johnson, o RB Robert Smith e o kicker Gary Anderson, que não errava um chute há duas temporadas, fez 15 vitórias e apenas 1 derrota. No dia 17 de janeiro de 1999, na final da NFC contra o Atlanta Falcons, com 2 minutos e 11 segundos restantes, Gary Anderson se posicionou para um field goal de 39 jardas que colocaria o Vikings no Super Bowl. O chute que nunca errava, errou. O Falcons empatou e venceu na prorrogação. É o momento mais devastador da história da franquia.
Os anos 2000 trouxeram turbulência dentro e fora de campo. O QB Daunte Culpepper teve uma temporada de 2004 monumental, com 4.717 jardas e 39 touchdowns, a melhor marca individual de um QB na história do time, mas o Super Bowl seguiu distante. Em 2001, o offensive tackle Korey Stringer faleceu durante o training camp por insolação, uma tragédia que levou à aposentadoria de sua camisa 77 e à criação do Korey Stringer Institute para prevenção de mortes súbitas em atletas. O Love Boat Scandal de 2005 manchou a imagem do time. Randy Moss foi trocado em 2005, Culpepper se lesionou, e a era Mike Tice terminou em demissão. A franquia foi vendida para Zygi Wilf, dono até hoje. Adrian Peterson, draftado em 2007, se tornou a nova estrela: Offensive Rookie of the Year e, em 2012, mesmo voltando de uma grave lesão no joelho que deveria encerrar sua temporada, correu 2.097 jardas, a segunda maior marca em uma temporada na história da NFL, e conquistou o MVP, sendo o último não QB a levar o prêmio. Sob Mike Zimmer, a partir de 2014, a defesa voltou a ser elite, e os WR Adam Thielen, undrafted e torcedor do time desde criança, e Stefon Diggs, selecionado na quinta rodada de 2015, se tornaram a nova dupla de destaque.
A temporada de 2017 entregou o momento mais épico da história recente do Vikings: o Minneapolis Miracle. Com 10 segundos no relógio, perdendo por 24 a 23 para o New Orleans Saints no Divisional Round, Case Keenum lançou para Stefon Diggs, que não apenas recebeu, mas correu até a endzone para o touchdown da vitória, fazendo o US Bank Stadium explodir. O Vikings, no entanto, foi eliminado na final da NFC pelo Philadelphia Eagles, perdendo a chance de se tornar o primeiro time a jogar um Super Bowl em casa. A contratação do QB Kirk Cousins em 2018 abriu uma nova fase, que incluiu outra vitória memorável nos playoffs sobre os Saints em 2019, com Adam Thielen fazendo uma recepção crucial de 43 jardas na prorrogação e Kyle Rudolph marcando o touchdown da classificação. Diggs foi trocado em 2020 para o Bills, e com a escolha recebida o Vikings draftou Justin Jefferson, que em 2022 foi eleito o melhor jogador ofensivo do ano e segue colecionando recordes, prometendo se tornar um dos maiores WR da história da liga.
Com Kevin O'Connell como head coach e Kwesi Adofo-Mensah como GM desde 2022, o Vikings voltou a ser campeão da NFC Norte e protagonizou a maior virada da história da NFL, revertendo um 33 a 0 contra o Indianapolis Colts. A história do Minnesota Vikings é uma narrativa de grandeza persistente, de talentos extraordinários e de momentos que definem o que significa ser torcedor de um time que nunca conquistou o Super Bowl, mas que carrega mais drama, paixão e resiliência do que a maioria das franquias campeãs. De Fran Tarkenton a Justin Jefferson, da Purple People Eaters ao Minneapolis Miracle, o roxo e dourado segue em busca do troféu que transformaria décadas de sofrimento na maior redenção da história do esporte americano.
