Quarterback, edge rusher e secundaria: as batalhas que vão definir o destino dos Vikings em 2026

O training camp do Minnesota Vikings mal começou e já oferece mais perguntas do que respostas. A disputa pela posição de quarterback entre Kyler Murray e J.J. McCarthy é, sem exagero, a batalha mais observada de toda a NFL neste momento, mas está longe de ser a única que tira o sono dos torcedores roxos. Da linha defensiva à secundaria, passando por running back e tight end, o elenco montado para esta temporada apresenta competições genuínas que vão moldar o roster final e, consequentemente, as chances do time de repetir a campanha de divisão conquistada em 2024.
Na posição de quarterback, tudo indica que Kyler Murray será o QB1 na Semana 1. Os primeiros dias de treino sem pads mostraram disputas parelhas entre quarta e sexta-feira, mas no sábado Murray teve um desempenho decisivo enquanto McCarthy viveu um dia ruim. Na segunda-feira, primeiro dia com pads, ambos começaram bem no 7-contra-7 e no 11-contra-11, porém naufragaram no situacional de dois minutos, quando a defesa de Brian Flores dominou os dois. Um detalhe chama atenção: McCarthy tem tentado passes mais curtos e seguros, enquanto Murray busca profundidade e lances difíceis. Para um quarterback que precisa provar evolução nos passes intermediários e arqueados, usar o training camp como ambiente seguro para errar e testar parece ser a abordagem mais inteligente, e McCarthy não está fazendo isso. Kevin O'Connell já admitiu que tem uma data definida para anunciar o titular, mas não revelou qual. A expectativa é que isso aconteça após o primeiro jogo de pré-temporada contra o Giants e antes do treino conjunto com o Ravens, evento que O'Connell valoriza demais para enfrentar sem um QB1 definido.
A grande questão que paira sobre a sala de quarterback vai além de quem começa: o que acontece com o perdedor? Se Murray vencer a disputa e tiver uma grande temporada, o cenário mais provável é o time renovar com ele e buscar uma troca por McCarthy, possivelmente por uma escolha entre o final de segunda e início de terceira rodada. O valor de mercado do ex-pick número 10 está muito baixo no momento, e dificilmente os Vikings conseguiriam recuperar algo próximo do que investiram. Ainda assim, manter um quarterback jovem no banco por dois anos sem perspectiva de jogar seria um desperdício para ambas as partes. No cenário inverso, se McCarthy surpreender e ganhar a vaga, Murray dificilmente aceitaria ser reserva. Ele veio a Minnesota com um contrato de um ano sem franchise tag justamente para relançar sua carreira como titular e buscar um grande contrato na próxima free agency. É razoável imaginar que, nesse caso, ele pediria uma troca antes da deadline, e os Vikings, um time que historicamente tenta fazer o certo pelos jogadores, provavelmente atenderiam o pedido, transformando um investimento de 1.3 milhão de dólares em capital de draft.
Se a disputa de quarterback é a mais barulhenta, a posição de edge rusher é talvez a mais preocupante em termos de profundidade. Com a saída de Jonathan Greenard, o time conta com Andrew Van Ginkel e Dallas Turner como titulares, mas depois deles o abismo é real. Van Ginkel, apesar de não ter repetido o desempenho de nível All-Pro de sua primeira temporada, permanece como peça fundamental no esquema de Flores pela sua versatilidade absurda, podendo alinhar como edge, linebacker ou até praticamente como defensive tackle sobre o center. É essa flexibilidade que permite Flores executar os disfarces e variações que tornaram sua defesa tão dominante. Turner, por sua vez, mostrou evolução significativa no segundo semestre de 2025, com seis ou sete sacks nos últimos nove jogos, e o time claramente aposta em mais um salto de produção. Mas atrás deles, nomes como Bo Richter e Tyler Berry são essencialmente jogadores de special teams. O rookie Jake Golday, linebacker de ofício que está treinando como edge com o primeiro time, pode ser o futuro Van Ginkel do esquema, mas contar com isso já em 2026 seria arriscado. A contratação de Adams é a prova viva dessa necessidade.
Na posição de defensive tackle, o cenário é mais animador. Jalen Redmond se consolidou como uma das gratas surpresas da defesa nos últimos dois anos, aparecendo consistentemente nos gráficos de eficiência e pressão entre os melhores da liga. O calouro Caleb Banks, escolha de primeira rodada, já treina com o primeiro time e traz potencial real de pass rush que vai além do perfil de nose tackle que muitos imaginaram no draft. Big Citrus chega para o papel específico de run stuffer pesado, enquanto Levi Drake Rodriguez e Ingram Dawkins, este último testando repetições também como edge, garantem profundidade. Se Banks se mantiver saudável, algo que não é garantido dado seu histórico de lesões nos pés, a dupla com Redmond pode ser a mais promissora que o time teve na posição em anos.
A secundaria é outro ponto de tensão considerável. Em safety, o time pode estar diante da sua maior fragilidade. Josh Metellus vem de uma temporada abaixo do esperado, impactada por lesões que culminaram em cirurgia, e nunca foi um safety tradicional de cobertura. O calouro Jacob Thomas, vindo de Miami, traz agressividade e capacidade de gerar turnovers, algo que faltou drasticamente aos Vikings em 2025, quando a defesa produziu apenas cerca de 10 interceptações na temporada. Existe um cenário real em que Thomas conquiste a titularidade antes mesmo do meio da temporada. Jay Ward, que encerrou 2025 com snaps de qualidade cobrindo a ausência de Metellus, e o veterano Jamal Adams, contratado como linebacker mas com DNA de safety, adicionam opções para Flores montar seus pacotes. A grande incógnita é Harrison Smith: a lenda ainda não decidiu oficialmente entre aposentadoria e mais um ano, e sua ausência deixa um vácuo de liderança e estabilidade que nenhum nome do roster atual consegue preencher sozinho. Nos cornerbacks, Byron Murphy Jr. e Isaiah Rogers formam a dupla titular, com James Pierre chegando do Pittsburgh para ser o terceiro corner, provavelmente assumindo o outside enquanto Murphy é liberado para jogar no slot, sua melhor posição. O destaque surpresa do camp tem sido Charles Demmings, um corner que está travando boas batalhas contra Justin Jefferson e Jordan Addison nos treinos.
No ataque, além de quarterback, as disputas são menos dramáticas mas igualmente relevantes. Em running back, Jordan Mason deve liderar em volume de carregadas, com Aaron Jones contribuindo em terceira descida, proteção de passe e situações que demandem um bloqueador superior. A verdadeira disputa é pelo RB3, entre Zavier Scott, um ex-recebedor com habilidades no jogo aéreo, e o rookie Claiborne, cuja explosividade lembra traços de Dalvin Cook, mas cujo problema com fumbles é uma preocupação legítima. Em tight end, com T.J. Hockenson em último ano de contrato e Josh Oliver como xodó de O'Connell, Gavin Bartholomew, escolha de draft que perdeu toda a temporada passada por lesão, está se destacando nos treinos e ganhou snaps com o primeiro time. Na linha ofensiva, a renovação de Brian O'Neill por quatro anos e 96 milhões foi um acerto absoluto do novo GM, com impacto no cap extremamente gerenciável e essencialmente apenas dois anos de garantia total. O center Blake Brandel assume como titular após improvisar na posição no ano passado, e o rookie Tiernan, um dos melhores tackles desta classe de draft, chega como seguro para eventuais ausências de Christian Darrisaw.
O retrato geral do training camp é de um time que ainda precisa definir peças fundamentais enquanto aposta na continuidade de uma defesa que carregou o elenco aos playoffs mesmo com um ataque abaixo da média. A defesa de Brian Flores, agora com vários jogadores entrando no quarto ano de sistema, promete ser ainda mais afiada, e os primeiros dias de treino com pads confirmaram isso: a defesa dominou todas as situações. Se o ataque encontrar um quarterback capaz de elevar o nível e o front office resolver as lacunas em edge e safety, o Minnesota Vikings tem potencial para ser mais do que apenas um time de playoffs em 2026. Mas com tantas perguntas em aberto, a margem para erro é mínima.
